Parafraseando a Dr.ª Rute Remédios, as opiniões são como as vaginas: cada uma tem a sua e quem quiser dá-la, dá-a. Neste blog, Julie D´aiglemont dá a sua. Opinião, claro. E nem sempre da forma mais respeitosa. Isso ofende a vossa sensibilidade? Então, ide, ide. Ide ler o programa de um qualquer partido de extrema esquerda, que de certeza é mais consentâneo com vossos princípios morais.





segunda-feira, 8 de março de 2010

A minha vida com Pável Ivánovitch Tchítchicov

Ao telefone:
Ele: Ontem vi um filme muito interessante.
Eu: Sim? Qual?
Ele: Não me lembro do nome… Law... qualquer coisa. Com actores muito conhecidos mas não me lembro dos nomes deles. Mas tu sabes.
Eu: Diz filmes em que tenham entrado, para ver se descubro.
Ele: Hum… Olha, um deles entrou num épico que não era o Gladiador, porque esse era o Russell Crow, nem o Hector (parêntesis: o namorado gostou tanto do “Tróia”, que passou uma semana a imitar o Brad Pitt, gritando “Hectooooor” – de lá para cá o filme mudou de nome).
Eu: Não sei, deixa lá.
Ele: Bom, a história do filme é demais – um engenheiro vê a sua mulher ser morta e violada por dois gajos. A polícia apanha-os, mas o advogado deles consegue um bom acordo. Ele espera dez anos e apanha-os. Um é morto com uma injecção, mas demora a morrer e sofre horrores. Esquarteja o outro enquanto filma e manda o filme à família.
Eu: Bolas!
Ele: Tens de ver.
Eu: Não me parece.
Ele: Olha que eu acho que a tua mãe iria gostar muito.
Eu: Não duvido. Pela descrição, parece-me ser suficientemente sanguinolento para agradar à minha mãe.
Ele: O fulano é apanhado pela polícia e é levado a Tribunal. Mas ele é um génio e prescinde de advogado.
Eu: Ah, é um génio, realmente.
Ele: É, sim. Porque descobre uma tecnicalidade e a Juíza dá-lhe razão, mandando libertá-lo. Mas ele reage e insulta a Juíza: “Sua cabra, eu sou um potencial homicida e tu queres soltar-me?” E vai para a prisão.
Eu: Sim, dá para perceber que é um génio.
Ele: Não percebes. Ele queria ir para a prisão. Da prisão começa a matar toda a gente que tinha colaborado para a pena dos assassinos da mulher ser tão baixa. O preto fica doido.
Eu: O preto? Que preto?
Ele: O advogado. É um actor muito conhecido. E, perguntas tu, como é que ele matava, estando na prisão?
Eu: Não sei. Como é que ele matava?
Ele: Não digo. Tens de ver o filme.
Eu: Não me parece, já me contaste o enredo todo, perdeu o interesse. Conta lá.
Ele: Não conto, tens de ver. Porque o gajo era um génio, puseram-no na solitária e as pessoas continuavam a ser assassinadas. O Advogado dos assassinos, a Juíza, os seguranças… Diz-me, diz-me como é que ele conseguia!
Eu: Sei lá. Tinha um cúmplice?
Ele: A-ha! Não! Eles também pensavam que sim, mas não tinha. Adivinha lá, tu que adivinhas sempre quem é o assassino nos policiais.
Eu: Não sei. Rendo-me. Diz.
Ele: Não digo. Tens de ver. Olha vou dizer-te quem são os actores. Vou pôr o filme.
Eu: Se calhar, depois dizias-me, porque vou tomar banho.
Ele: Não! Espera! Esperas?! (em tom imperativo)
Eu: (suspiro)
Ele: Olha, não aparecem os nomes no início. Vou pôr andar para a frente em 16x.
Eu: Eu queria tomar banho.
Ele: Agora esperas! Olha, passou demasiado. Agora voltou ao início.
Eu: Tenho a água do banho a correr, dizes-me depois.
Ele: Espera! Agora, esperas! (tom mesmo muito imperativo, como se fosse um crime de lesa majestade eu não esperar)
Eu: (suspiro)
Ele: Já está! Gerard Butler e Jamie Foxx!
Eu: O Gerard Butler entrou no “300”.
Ele: Sim, é isso.
Eu: Pronto, agora podes dizer-me como é que ele matou tanta gente quando estava na prisão?
Ele: Não! Vê o filme!
No fim desta conversa fiquei com uma dúvida: caso com ele ou contrato um cigano para lhe dar um enxerto de porrada?

1 comentário:

Catherine Linton disse...

Ahahahah! Casa com ele e contrata um cigano. E repete o ritual ad nauseam todos os dias para fazê-lo recordar os motivos, que passam basicamente por ter cometido a ignomínia de lhe contar o enredo do filme, deixando a parte interessante estrategicamente oculta.
E depois ficam admirados porque motivo temos nós o dia da mulher.